Nascimento

De todos os atributos que diferenciam a humanidade dos outros animais, o que eu apontaria como o mais sublime é o seu ardente anseio por entendimento. Para o ser humano, não basta estar vivo, é preciso saber por que se está vivo. É preciso conhecer a Natureza, como ela funciona, como funcionamos nela, como nos relacionamos com ela. O ser humano tem uma sede infinita por se conhecer e se entender. Este esforço moldou a trajetória da Humanidade desde seu amanhecer e, penso eu, livrou a raça humana dos grilhões do atavismo.

A busca pela compreensão da natureza, na infância da humanidade, deve ter tido um propósito essencialmente pragmático, dada a dificuldade das praxes da sobrevivência naqueles tempos. Quando se sabe como tudo funciona é possível antecipar-se às dificuldades. Não é difícil imaginar os mais criativos, ao perceberem o padrão de alternância de ciclos de estações, dias e noites, nascimentos e mortes, imaginarem personagens por trás destes eventos e contarem suas histórias para outros, que as repetiriam. As histórias eram consistentes com os eventos, e vice-versa, e o mundo estava explicado.

Todavia, às vezes não era o bastante. A natureza pode ser bem impiedosa por vezes. Era preciso intervir na natureza, por algum motivo ou outro. Alguém precisaria interagir com aqueles personagens que comandavam a natureza. Não podia ser qualquer um. Precisava ser alguém cuja Visão pudesse contemplar estes seres; alguém cujos pés pudessem trilhar os caminhos deles. E assim, quase junto com a humanidade, nasceu a Magia. Não é possível saber quando a magia passou de um instrumento de intervenção na natureza para um instrumento de compreensão da natureza. Mas um dia isto aconteceu, e o ser humano, finalmente, possuía um meio de Entender, e de Se entender.

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Deve ter começado sem intenção nenhuma, afinal, quem ligaria para restos de frutas jogados em um canto qualquer? No entanto, alguns devem ter percebido que ali surgiram plantinhas novas. E mesmo estes que perceberam não devem ter ligado um fato ao outro. Até que um dia, alguém se perguntou “será que…?” e jogou os restos de fruta em um outro lugar e esperou para ver o que acontecia… e cresceu um pé de fruta. De maneira análoga, aqueles com mais percepção e mais curiosidade devem ter notado que algumas pedras, quando batiam umas nas outras, geravam faíscas, que por sua vez, poderiam criar o tão bem-quisto fogo, o pedacinho de sol que afugenta o escuro da noite. Este mesmo fogo, quando por sobre umas pedrinhas alaranjadas, fazia-as soltar umas gotas prateadas, que não eram água.

E assim, entre acidentes, curiosidades, observações e alguma reflexão, o ser humano foi descobrindo que havia uma lógica por trás da Natureza. As coisas não eram aleatórias, ou arbitrárias, mas sim, seguiam um conjunto de regras coerente. Ao observar a natureza, era possível obter um vislumbre destas regras; ao interagir com ela, este vislumbre se tornava mais nítido. E quanto mais compreensão sobre as regras subjacentes da natureza, a interação era cada vez mais profunda. Mas para isto, eram necessárias pessoas com Visão, aquelas que percebiam algo onde outros não percebiam nada. Que ousavam dar um passo adiante, e fazer algo só para ver o que acontecia. E assim, tímida e meio sem jeito, nasciam os rudimentos daquilo que viria a ser conhecido como Ciência.

Tanto a Magia quanto a Ciência, em seus momentos iniciais, devem ter sido improvisadas, espontâneas e não-sistemáticas; frutos mais da perseguição de vislumbres do que de esforço concentrado. O transcorrer das eras e o aprendizado de uma geração com a outra foram, no entanto, refinando e solidificando significados e estabelecendo práticas e métodos. Cumpre notar que, até um momento relativamente recente na história, aqueles que faziam magia também faziam ciência, e vice-versa. Não vou entrar no mérito de como elas se separaram – não agora – mas o fato é que, hoje, pelo menos para um olhar mais apressado, magia e ciência são caminhos divergentes, mesmo antagônicos.

Da mesma forma que as serpentes no caduceu, magia e ciência revolvem ao redor do mesmo eixo e, por mais que sigam caminhos distintos, se encontram e se tocam em vários pontos. Com o tempo, veremos o que estas serpentes têm em comum, o que têm de diferente, o que podemos aprender de uma a partir do que sabemos sobre a outra.

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